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domingo, 2 de março de 2014

Álbum de Família (August: Osage County) - 2013; a casa vai cair

Álbum de Família (August: Osage County), lançado em 2013.
Um filme de John Wells.
Este é um daqueles dramas familiares arrebatadores. Assim como Deus da Carnificina, é uma adaptação de uma peça, e em ambos os casos verdades ácidas acabam formando um humor negro capaz de provocar alguns bons risos. Mas se a obra de Polanski mostra o conflito numa situação mais fechada, este aqui se aprofunda muito mais nos personagens e possui uma carga dramática muito mais pesada (aqui o riso surge muitas vezes como um desconforto). E embora Carnage não seja simplesmente teatro filmado, Osage County é mais cinematográfico. Com ele Meryl Streep recebeu a sua 18ª indicação ao Oscar.

Beverly Weston (Sam Shepard) é um velho poeta alcoólatra que se suicida, deixando para trás a esposa Violet (Streep), que é viciada em remédios e tem câncer de boca. Estes acontecimentos levam boa parte da família para casa, incluíndo as três filhas Barbara (Julia Roberts), Karen (Juliette Lewis) e Ivy (Julianne Nicholson) e a irmã Mattie Fae (Margo Martindale). Mas há segredos e mágoas que levam essas pessoas a se atacarem, cheias de rancor e culpa.

O roteiro foi adaptado pela própria escritora a peça homônima, Tracy Letts. E deu certo. John Wells não deixa seu filme virar teatro, ele extrai atuações quase sempre naturais do elenco fantástico (há momentos exagerados e monólogos desnecessários, reconheço), filma belos planos externos (e as cenas acontecem em diversos cenários diferentes), dá closes e faz cortes inteligentes. Por outro lado não acrescenta nada de muito autoral e desliza as vezes na questão da verossimilhança.

Mas o maior acerto do filme é mesmo o texto e as atuações. Embora seja um pouco duvidoso que uma família tenha sempre uma inteligente fala afiada para ferir uns aos outros (duvidoso as falas serem tão inteligentes, não afiadas), é impossível não se deixar levar por elas. Diálogos dinâmicos são um ajuste de contas que essa gente - ressentida por problemas próprios e pelos problemas que acompanharam a família ao longo dos anos - faz quando se reúne numa situação difícil. O calor da região é insuportável, a paisagem é seca e triste. O fogo cruzado esquenta ainda mais as coisas. 
Streep é quase sádica, fere a todos sem pensar com suas acusações, ironias e revelações, ele dá voz a uma verdade que foi calada ou que é encoberta para preservar a paz. Julia Roberts (belíssima, sem muita maquiagem), é a filha durona que tenta colocar as coisas em ordem, mas sua relação com a mãe é péssima e está com problemas no casamento e na educação da filha. Ela também recebeu uma indicação ao Oscar, de coadjuvante. Outros atores brilham, inclusive as rápidas cenas em que o bobo personagem de Benedict Cumberbatch aparece em cena.

A trilha sonora é de Gustavo Santaolalla (O Segredo de Brokeback Mountain), e realça a solidão e a amargura dessa gente. No final o filme pode ser esquecível, se considerarmos ele apenas como filme; mas falando de dramas da casa que se desfaz, é sim memorável.

#ficaadica

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A Ilha (The Island) - 2005; vazio como estava fadado a ser

A Ilha (The Island), lançado em 2005.
Um filme de Michael Bay.
Se tem um nome na indústria cinematográfica que leva muita gente a torcer o nariz é Michael Bay. Responsável por alguns sucessos de bilheteria que no entanto, do ponto de vista artístico, são grandes porcarias, A Ilha é mais um filme com sua marca registrada: dispensável e profundamente vazio. Quem não o conhece que o compre.

Em meados do século XXI, uma corporação cria clones humanos para servirem de doadores de órgãos para seus originais. Vivem sob a história de que são os poucos sobreviventes de um virus mortal que existe lá fora, e que apenas um lugar, chamado de "A Ilha", está livre de contaminação e é para onde são mandados os ganhadores da "loteria", que na verdade estão indo para a mesa cirúrgica.

Com uma premissa razoavelmente interessante como esta, o filme, nas mãos de outro, poderia até ter dado certo. Mas como estamos falando de Bay; os clichés do filme, entre eles cientistas maus e corporações sinistras; são agravados com um roteiro furado como uma peneira de assoprar café.

O início chega a ser promissor, embora não pareça nada muito novo para nossos olhos. Mas a questão moral e a reflexão sobre os passos da humanidade que poderiam ter sido abordadas e gerado um drama de ficção decente, como fez Não me abandone jamais poucos anos depois - com uma trama um pouco parecida -, dá lugar a uma interminável perseguição a Ewan McGregor e Scarlett Johansson, que fugiram do complexo. A dupla de atores faz o que pode para melhorar o filme um pouco. Nesta segunda parte que você vê de quem é o filme, supondo que estivesse ainda na ignorância: explosões, tiros, explosões, ação absurda e tola, explosões; a cara do diretor. 
A trilha sonora é incessante e o roteiro vazio e sem diálogos interessantes acaba de se afundar. O que precisa ter sido mostrado não foi, e o que não precisava ser explicado é jogado na cara do público, como se ele fosse idiota ou cego. Um ponto a menos para Michael Bay.

sábado, 6 de outubro de 2012

Moulin rouge - Amor em vermelho (Moulin Rouge!) - 2001; charmoso, porém frio-morno

Moulin Rouge - Amor em vermelho (Moulin Rouge!), lançado em 2001.
Um filme de Baz Luhrmann.
Pelo visto sou um dos poucos que não gostaram muito de Moulin Rouge. O Instituto Americano de cinema elegeu-o como o 25º melhor musical norte-americano de sempre; o filme levou um Globo de Ouro na categorial de melhor filme comédia/musical; foi indicado à Palma de Ouro no festival de Cannes e ao Oscar.

O musical tem seu charme, sem dúvida. Possui cenas memoráveis e uma variação extremamente rápida de ângulos de imagem em cada cena. O enorme problema - ao menos para mim - é que além de ser extremamente artificial - beirando, muitas vezes, o surrealismo - e muito meloso, as canções são um porre, soam infantis. Não é jazz! Musical sem Jazz tem tudo para dar errado. Sem dúvida um filme que agrada muito mais a um adolescente que a um adulto (mas prefiro mil vezes Moulin Rouge! que High School Musical, aquilo lá sim é o fim).

O filme se ambienta na Paris de 1900. Um escritor ingênuo e romântico acaba se apaixonando pela estrela do cabaré Moulin Rouge, a dançarina Satine, que tem tuberculose e não sabe. No início ela desdenha, mas depois o compra, e juntos vivem um amor em segredo, às escondidas do duque noivo da dançarina. Eles começam todos a trabalhar numa peça de teatro (escrita pelo referido escritor e protagonizado pela citada dançarina) que é patrocinada pelo duque, que é obcecado por Satine. Eles precisam se separar, do contrário o escritor pode ser assassinado e o show cancelado.

Vários musicais usam os cabarés antigos ou ambientes relacionados à arte como cenário, como Chicago, Cabaret e Nine.
Mas os outros passam a sensualidade e a boêmia do ambiente ao espectador, enquanto Moulin Rouge é tediosamente bem comportado; tem um protagonista chato pra caramba (tentei, mas não consegui simpatizar com o personagem de Ewan McGregor com cara de bobo que acredita na idealização do amor); tem um humor ao estilo Renato Aragão (leia-se: sem graça nenhuma)  e, vejamos só, tem fadas e a lua cantando músicas que, repito, são um porre.

As canções são trechos ou paródias de músicas populares, brilhantemente estragadas com vozes gritadas e artificiais (como tudo no filme): Your Song, do Elton John; The Show Must Go On, do Queen; Nature Boy, de Nat King Cole e Like a Virgin, da Madonna, são algumas das músicas que entraram no filme, que inclui ainda regravações de sucessos de Whitney Houston, Nirvana, The Police, Beatles, Phil Collins etc.

Como disse, não gostei (mas também não é a pior coisa que já vi), mas fez muito sucesso. Se quiser se arriscar, é possível que você leitor venha a gostar (depois conte-nos nos comentários).

#ficaadica

sábado, 4 de agosto de 2012

O Golpista do Ano (I love you, Phillip Morris) - 2009; engraçado e ousado

O Golpista do Ano (I love you, Phillip Morris), lançado em 2009.
Um filme de Glenn Ficarra e John Requa.
Jim Carrey, nesse filme, se mostra um ator versátil e ousado, ao fazer o papel de um criminoso gay, sem parecer ter pudores. Notável também á a trama, baseada em uma história e personagens reais.

Russel (Carey) é um policial casado e tem uma família. No entanto ele esconde de todos que é gay, e sempre dá umas escapadas com homens. Mas um dia ele sofre um acidente, e após quase morrer, decide se assumir do modo que é. Então se divorcia e vai morar em Miami, onde passa a passar golpes para poder manter a vida luxuosa. No entanto é descoberto e preso. Na prisão se apaixona por um outro detento, que é libertado e que nunca mais comete crimes. Então Russel passa a fugir da prisão para se encontrar com o namorado, e diversas vezes foge, aplica golpes financeiros, mente, volta a ser preso, torna a fugir... Numa último golpe, antes de ser colocado em prisão de segurança máxima, nós nem acreditamos no que ele faz!
É engraçada sua obscessão, os meios que usa para fugir e para enrriquecer, e os personagens altamente afeminados e muitas vezes fúteis por quem se apaixona.

#ficaadica