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domingo, 14 de dezembro de 2014

O Espírito da Colmeia (El Espíritu de la colmena) - 1973; infância e conflito bélico

O Espírito da Colmeia (El Espíritu de la colmena), lançado em 1973.
Um filme de Victor Erice.
Há quem diga que O espírito da colmeia é o mais belo dos filmes espanhóis. Não acho que chega a tanto, só do Almodóvar há ao menos uns três muito mais interessantes; mas é verdade que há aqui muita poesia e sensibilidade na fotografia e no texto de Erice.

Estamos numa zona rural da Espanha em plena II Guerra Mundial e a Guerra Civil, quando ocorre a exibição de “Frankenstein” (1931), de James Whale,  numa sala de cinema improvisada do vilarejo. Duas irmãs, Ana e Isabel, filhas de um apicultor, assistem ao filme juntas a outras crianças e adultos. Ana vai embora impressionada com a história, sem entender porque o monstro mata uma garotinha. Aparentemente querendo assustar a irmã mais nova e se aproveitar de sua ingenuidade, Isabel diz que o monstro é um espírito que Ana pode conhecer se procurá-lo. A partir daí vemos o mundo pelos olhos da pequena Ana, que passa por momentos de descoberta e amadurecimento.

Já num primeiro momento percebe-se que o filme de Erice é metalinguístico. É sobre a subjetividade de se ver um filme. Qualquer filme induz emoções distintas em cada pessoa. Isso depende da idade, da escolaridade, da vida, da classe social, da experiencia com cinema etc de quem assiste. Fica claro que para Ana o filme de James Whale teve um impacto muito maior que nas outras pessoas, inclusive a irmã, pouca coisa mais velha que ela.
Mas a obra é também um conto de amadurecimento. É certo que ao final da película a pequena Ana, imortalizada por Ana Torrent, continuará com seu rosto doce e infantil, os olhos arregalados de quem está a descobrir o mundo, a sua pureza. Mas estará mais sábia, estará entendendo melhor o mundo no qual vive. De contemplar um poço a entender a inevitabilidade da morte, todo o filme é sobre as descobertas dessa garotinha enquanto tenta encontrar o monstro do filme, tão real para ela.

El Espíritu de la colmena é melancólico. A fotografia amarelada, as tomadas estáticas e longas, o silêncio de um roteiro de poucas falas e sem música dão ao filme um ar de tristeza e reflexão. E a melancolia está lá nos olhos brilhantes de Ana, tão confusa e tão curiosa. A escuridão e a tristeza de um período de guerra civil contrasta com toda a imaculada ingenuidade de Ana. 
A linda fotografia de Erice é cheia de belos planos e simbolismos. Também o é a cinegrafia. Reparem como as janelas da casa da família são formadas por hexágonos, igual às favas de mel dos apiários. Estes hexágonos tornam a aparecer em outros lugares.
Não levem a mal este que vos escreve, mas demorei um tempo até entender que eram duas meninas os protagonistas. A princípio pensei serem dois garotos, embora um deles me parecesse muito feminino (!). E mesmo depois de entender que Ana era uma menina, ainda demorei mais um tempo para saber que Isabel também não era um garoto.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Desejo e perigo (Se, jie) - 2007; paixões proibidas e conflitos

Desejo e Perigo (Se, jie), lançado em 2007.
Um filme de Ang Lee.
O mais celebrado dos diretores asiáticos contemporâneos, Ang Lee (com dois Ursos de Ouro, dois Leões de Ouro - um por este filme - e três Oscar na estante), adaptou um best-seller lançado ainda nos anos 70 e criou um belíssimo thriller dramático que mais uma vez estuda as relações humanas e conta uma história de amor e ódio.

Estamos na II Guerra e a China está ocupada pelo Império Japonês. Wong Chia-chi (Tang Wei) é uma estudante universitária que por causa da ocupação deixou Xangai e se mudou para Honk Kong, onde entrou para um grupo de teatro idealizado pela resistência chinesa. Esse grupo de atores monta um plano para matar o Sr. Yee (Tony Leung), um aristocrata aliado aos japoneses, no qual Wong e um amigo devem se passar por um casal rico de sobrenome Mai e ela deve seduzi-lo e levá-lo para uma armadilha.

Ang Lee é um diretor de delicadezas e sutilezas. Vide outras obras suas como os excelentes O segredo de Brokeback Moutain e O tigre e o dragão. A sensibilidade que o diretor tem para enxergar beleza nos detalhes e revelar o turbilhão de sentimentos de seus personagens (mesmo quando são sentimentos velados) é muito grande. E aqui isso aparece nos closes nos rostos dos atores - revelando o mínimo tremor de lábios, o mínimo desvio de olhares - nos cortes e movimentos de câmera suaves que vão exibindo aos poucos os cenários e o elenco. 
De outro lado a brutalidade invade a tela em momentos de tensão e violência, com cenas sangrentas, uma relação sexual que mais parece um estupro e uma câmera agitada; afinal temos um suspense, um conto sobre agentes duplos. 
Entre estes dois extremos aparecem Wei e Leung nas controversas cenas de sexo que alguns chamam de explícitas. Sob uma luz cálida Lee filma os dois atores em verdadeiro coito (embora sem os closes do cinema pornográfico), observando como um voyeur os poros da pele suada de Leung, as axilas peludas e a pele úmida de saliva brilhando de Wei, os pelos pubianos e os espasmo e suspiros de gozo intermináveis dos dois ocorridos nas mais diversas posições. E no olhar dos atores, sobretudo de Wei, vemos o que eles sente, o que os afligem.

 
Os mais românticos acreditam no sexo como uma extensão e consequência do amor. Aqui Lee prova que o sexo é um ser independente, e que não raras vezes é ele a causa do amor; é em cada orgasmo que os laços afetivos dos dois são criados. Se apaixonam num jogo sexual de domínio e submissão semelhante ao de Marlon Brando e Maria Schineider em Último tango em Paris, embora Bertolucci tenha os filmado com mais impessoalidade do que Lee.
 
Enquanto se perdem na carne um do outro em quartos de hotéis, lá fora o país em plena guerra desaba, com as ruas cheias de miséria, militares e mortos. A cenografia e os figurinos incríveis ajudam na construção da parte estética da obra, filmado com o todo o bom gosto de Lee e da fotografia de Rodrigo Prieto.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A Noviça Rebelde (The Sound of Music) - 1965; há quase 50 anos o clássico emociona

A Noviça Rebelde (The Sound of Music), lançado em 1965.
Um filme de Robert Wise.
Quatro anos após lançar seu excelente Amor, sublime amor - e ganhar o Oscar - Robert Wise entregou este outro musical, que também conquistou a estatueta. O sucesso foi grande e logo o filme se tornou um clássico do cinema, principalmente no gênero de musicais. Mesmo quase a completar 50 anos, ele ainda se mantém atual, emocionando pela sua história real ocorrida às vésperas da II Guerra.

O filme é baseado na história real da família austríaca Von Trapp. Maria (Julie Andrews), que se prepara para se tornar uma freira, é enviada como governanta à casa dos Von Trapp, onde Georg  (Christopher Plummer), um militar viúvo ;e abastado, cuida de seus sete filhos com muita autoridade. Apesar das crianças serem umas pestes, ela acaba as conquistando através de brincadeiras e música. Também se apaixona pelo patrão. Enquanto isso, o partido nazista unifica a Áustria e começa com suas medidas duras de propaganda ideológica e repreensão.

Sou só eu ou alguém mais se lembra de Velázquez ao ver essa imagem?Produzido ainda no auge dos musicais - gênero que logo sucumbiu - A noviça rebelde esbanja leveza. O tempo era de inocência e tramas fáceis, (o cinema mais autoral e vanguardista engatinhava, eclodiria só alguns anos mais tarde, sobretudo na década de 70). O gênero musical se tornaria um pouco mais ousado só com produções como os Cabaret e All That Jazz de Bob Fosse. Mesmo nas cenas mais tensas (e há uma sequência de tirar o fôlego) onde são explorados assuntos tristes como o nazismo, se conserva um típico ar de doçura e ingenuidade. Isso, aliado a uma trama que gira em torno de uma família unida, torna o filme um dos mais "familiares" que se pode encontrar. Fica a sugestão para o dia dos pais próximo.

Alegre e vibrante, ele conta com um ótima trilha sonora, assinada por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II. Canções meigas e muito bem executadas e cantadas que embalam e ajudam a construir o enredo de The sound of music. A fotografia também tem papel fundamental nisso. Clara e colorida ela acrescenta mais desse ar de pureza e alegria que permeia a obra. Além de belíssimos planos externos, com direito a panorâmicas, a grandiosidade se revela também nas cenas internas aos cenários detalhados. A amplidão de salões é muitas das vezes destacada pelo distanciamento da câmera, que observa de longe os minúsculos atores no meio desses enormes espaços internos.
 
Julie Andrews protagonizara um ano antes Mary Poppins (post em breve), musical onde também fica responsável por crianças e que lhe rendeu uma estatueta da Academia. Seu carisma em The sound of music é fantástico, na pele de uma noviça em processo de amadurecimento. Também seu talento para o canto é apreciável. Plummer, por outro lado, não canta de verdade. A bela voz que se ouve é dublada. Ele representa um militar autoritário com os filhos e amargurado pela viuvez que descobre novas alegrias após a chegada de Maria. Os novos bons tempos da família contrastam com a desgraça nazista na qual se afunda a Áustria. Há ainda a belíssima Eleanor Parker como a antagonista a quem não convém que Maria e Georg, seu noivo, se apaixonem.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A um passo da eternidade (From Here to Eternity) - 1953; antes da desgraça eclodir

A um passo da eternidade (From Here to Eternity), lançado em 1953.
Um filme de Fred Zinnemann.
Belo clássico dos anos 50, From here to eternity nos leva até o Havaí nas vésperas e durante o ataque japonês a Pearl Harbor. Então, um denso estudo dos personagens é feito. Baseado no best-seller homônimo de James Jones, publicado em 51 e trás um elenco famoso. Supostamente o cantor e ator Frank Sinatra entrou para o elenco devido a ligações com a máfia, lenda (aparentemente real, ao menos em parte) que foi eternizada no O poderoso chefão de Coppola.

Meses antes do ataque que levou os EUA à II Guerra, acompanhamos três militares: o cabo Prewitt (Montgomery Clift), que foi rebaixado e transferido para a ilha por "questões pessoais", que se apaixona por uma acompanhante de um clube (Donna Reed) e que, se recusando a lutar boxe, é perseguido pelos superiores, em especial o capitão Holmes; o sargento Warden (Burt Lancaster), que está apaixonado pela esposa (Deborah Kerr) do capitão; e Angelo Maggio (Sinatra), descendente italiano com forte atrito com um sargento violento.

Apesar das tramas mais ou menos paralelas (na verdade todas se completam e se dependem), é fácil compreender e acompanhar a narrativa de Zinnemann e do roteiro de Daniel Taradash. Tudo é conduzido de forma simples e linear. 
No final cenas excitantes e realistas da batalha ocorrida durante a invasão japonesa são mostradas, numa quantidade ideal. Apesar disso, From here to eternity se foca em seus personagens e problemas. Três homens e duas mulheres cujos passados e anseios se esbarram e os conduzem à infelicidade. Um dos homens se amarga de remorso, outro vive um dilema entre amor e profissão. Os dois estão apaixonados, por mulheres e pelo exército. As duas mulheres também tem passados difíceis, temperamentos fortes e desejos amorosos opostos. As paixões destes dois casais são limitadas pelo contexto em que ocorrem, onde tudo parece conspirar contra eles. E nem só de paixões se faz o filme. O remorso de Prewitt acaba levando-o para uma vida infernizada por outros militares, que ele suporta com coragem e dignidade; já Maggio é alegre e expansivo, mas a bebedeira e o conflito com um sargento xenofóbico acabam com sua paz e segurança. Estes obstáculos na vida desses cinco personagens acabam criando laços de afeto e compreensão; mas também guerras internas, dúvidas e ciúmes, que limitam ou impedem a liberdade e a felicidade deles. Tudo isso mostrado de forma crível e com grande competência pelo elenco de nomes conhecidos. É emocionante ver Clift tocar corneta em luto às lágrimas.

Zinnemann também usa alguns simbolismos e insinuações para criar o ambiente carregado e bélico daqueles tempos e lugares. Mas seu trabalho no geral é discreto, raras vezes fazendo algum movimento mais ousado das câmeras. Um efeito estético interessante é uma transição na qual a imagem de ondas rebentando na praia se transformam na fumaça de um cigarro. Porém, não sei se o problema estava na cópia que assisti, achei a fotografia em preto e branco um tanto escura e sem vida. Acho que a icônica cena da praia teria ficado ainda mais bela se tivesse sido melhor iluminada, já que a poesia que o por do sol costuma imprimir não funcionou muito bem em preto e branco.
Ainda sim A um passo da eternidade é uma obra excelente sobre paixões e guerras. Uma síntese da humanidade da primeira metade do século XX

#ficaadica

sábado, 26 de abril de 2014

O Último Imperador (The Last Emperor) - 1987; a belíssima cinebiografia do último monarca chinês

O Último Imperador (The Last Emperor), lançado em 1987.
Um filme de Bernardo Bertolucci.
A obra prima de Bertolucci, que lhe rendeu o Oscar, nos leva à China da primeira metade do século XX, onde acompanhamos a história de Pu Yi - o último monarca do país, que tornou-se uma república em 1912.

O príncipe da dinastia Qing ainda não tinha completado 3 anos quando foi coroado imperador em 1908. Já em 1912 ele perde o trono com a proclamação de uma república. Mas dentro da Cidade Proibida, conjunto de palácios onde por cinco séculos viveram os monarcas da China, o menino mantém o título simbolicamente. Mais tarde é expulso do palácio com suas duas esposas, até se aliar ao Japão, que estava em guerra com a China, e virar um fantoche do inimigo.

Aqui Bertolucci nos mostra todo seu talento como cineasta. O filme retrata diversos períodos da vida de Pu Yi, da infância à velhice, e com isso diversos momentos da história do país, que ele testemunhou. É por meio de duas historias paralelas, uma invocando a outra como flash back, que conhecemos Pu Yi. Sem nunca de fato ter tido algum poder (esse ponto é escancarado em cenas memoráveis), e vivendo numa prisão disfarçada pelo luxo, ele cresce egocêntrico e ambicioso. Ambição que o leva a trair seu país e que o leva preso por mais de uma década. Algo benéfico também é que historiados tem vindo a dizer que o filme retrata com grande fidelidade o que foi a vida do imperador.
O lado emocional de outros personagens também recebem alguma atenção, fundamental para compreender ainda mais a vida de Pu Yi.

O visual é impecável, assinada por Vittorio Storaro, o mesmo diretor de fotografia de Apocalipse Now, de Coppola. Storaro brinca com os jogos de luz e sombras, principalmente nos ambientes internos da mística Cidade Proibida. Foi a primeira vez na história que o governo chinês permitiu que se filmasse uma ficção dentro do prédio. Seu trabalho também divide a trama em pedaços, mudando a cor básica de acordo com a época e o contexto dela. Estamos anos antes da onda de ocidentalização que invadiu o leste asiático - ponto que também fica explicito em várias passagens é justamente essa batalha entre o tradicionalismo e mudanças inspiradas no modo de vida ocidental -, a cenografia, além do palácio, são prédios da arquitetura tradicional chinesa. Os belos figurinos também são os trajes típicos que hoje estão em desuso. As roupas variam dos trajes luxuosos da realeza aos uniformes penitenciários, passando pelas roupas mais simples dos servos eunucos.
Bertolucci também cria planos incríveis de seus cenários, dá closes nos rostos em momentos oportunos, deixa a câmera explorar um pouco dos arredores, usa metáforas e simbolismos deliciosos em alguns momentos (vide sequência do ménage à trois, onde cores quentes e fogo são elementos importantes da construção).
O elenco é competente, inclusive o ator que faz o imperador bebê é muito legal. Mas o destaque maior vem de John Lone, que desenvolve muito bem seu papel. Peter O'Toole também faz um papel secundário mas importe em que aparece muito bem.
A trilha sonora é bem interessante, constituída principalmente da música tradicional local.

The last emperor é um deleite para os olhos, e uma fascinante aula da história da China até o momento em que o país se tornou comunista.

#ficaadica

quarta-feira, 19 de março de 2014

Salò ou Os 120 Dias de Sodoma (Salò o le 120 giornate di Sodoma) - 1975; perversão humana e crítica ao fascismo

Salò ou os 120 Dias de Sodoma (Salò o le 120 giornate di Sodoma), lançado em 1975.
Um filme de Pier Paolo Pasolini.
Polêmico desde antes de ser lançado - há quem acredite que o assassinato de Pasolini, pouco antes do lançamento, foi por causa do filme -, Salò ou os 120 dias de Sodoma foi proibido em vários países, devido a seu conteúdo brutal que mostra cenas de tortura, estupro, nudez aos montes e todo tipo de violência física, moral e sexual. Não é um filme fácil, nem é para todos os públicos. Além de forte e perturbador o ritmo é cansativo e a obra não oferece muitos atrativos em relação à narrativa ou as atuações (a maioria ruim, embora deva se considerar que um filme como este não é todo ator que tem coragem de participar e por isso boa parte do elenco nem é composto por atores profissionais).
É baseado na obra do controverso Marquês de Sade, mudando poucas coisas em relação ao livro.

A Ítália, depois de declarar guerra aos Aliados em 1940, sofreu grandes derrotas. Logo tropas aliadas controlavam boa parte do país e em 1943 Mussolini foi deposto (e a Itália, como sabem, mudou de lado e se voltou contra o Eixo). Mas com ajuda de Hitler, Mussolini conseguiu criar um pequeno estado nos territórios ainda livres das tropas alemãs e britânicas, a República de Salò. É na curta vida dessa república que o filme de Pasolini se ambienta. Quatro homens unem suas fortunas e com o dinheiro levam moças e rapazes sequestrados, prostitutas velhas que contam histórias horrendas e soldados "bem dotados" para uma mansão isolada, onde eles podem se aproveitar dessas pessoas e realizar as mais sórdidas fantasias sexuais.

Poucos filmes conseguem chocar tanto quanto Salò, choque que continua mesmo depois que se termina de assistí-lo. Mas Pasolini não choca apenas por chocar, para causar rebuliço. Por trás de Salò há uma forte crítica, que por vezes se mostra explícita em algumas passagens. 
A maior crítica é ao capitalismo. Diz um dos personagens, eventualmente:

Só quando eu vejo a degradação dos outros, é que me alegro...
Enquanto homens forem iguais, sem esta diferença, a felicidade não pode existir...
Em todo o mundo, nenhuma volúpia lisonjeia mais os sentidos do que o privilégio social.

As vítimas dos quatro poderosos são instrumentos de prazer (prazer que ninguém parece sentir, nem eles próprios. O sexo sempre é vazio e frio). São objetos de consumo, um consumo que vai muito além do corpo, mas da dignidade humana. 
Também há uma visão pessimista do mundo e da humanidade, que não se abstém de praticar o mal e se aproveitar do mais fraco. No filme, as vítimas são obrigadas a aprenderem a também serem cruéis e depravados, e alguns de fato aprendem.
No mais também é muito fácil perceber uma dura crítica ao fascismo (que controla o povo submisso) e à ditadura religiosa praticada pela Igreja.

Nós Fascistas, somos os verdadeiros anarquistas.

O desrespeito aos atos religiosos,
por qualquer um, será punido com a morte.
(é irônica a hipocrisia dessa fala)


Não é um filme fácil, mas é uma obra de importância histórica que os cinéfilos menos sensíveis deverão querer conhecer.