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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Azul é a Cor Mais Quente (La vie d'Adèle) - 2013; à beira da vida adulta

Azul é a Cor Mais Quente (La vie d'Adèle), lançado em 2013.
Um filme de Abdellatif Kechiche.
Kechiche fez barulho em Cannes com este filme, onde foi premiado com a Palma de Ouro. Com três horas de duração e longas cenas de sexo explícito entre duas mulheres, La vie d'Adèle polarizou a crítica e o público. Além disso as atrizes e alguns técnicos deram entrevistas acusando o diretor de maus tratos e exploração, dizendo também que jamais voltarão a trabalhar com ele. Apesar das polêmicas, é um filme poderoso sobre amor, paixão, sexualidade e sobretudo juventude.

Adèle (Adèle Exarchopoulos) tem 15 anos. Estuda e não tem muita certeza do que quer para sua vida, apenas desconfia que quer ser professora. Ela tem relacionamentos frustrados com rapazes, que não a satisfazem totalmente. Um dia ela conhece Emma (Léa Seydoux), artista plástica alguns anos mais velha e abertamente homossexual. As duas acabam se envolvendo profundamente.

Adèle está passando por momentos de descobertas e está imersa em dúvidas e incertezas. Ela encontra em Emma uma paixão ardente que a guia por um caminho de autoconhecimento e liberdade. Emma é o canal para a vida adulta de Adèle; é quem lhe proporciona descobertas e prazer. Não é um filme de lésbicas, é de seres humanos que não podem nem querem ser reduzidos à orientação sexual. É uma celebração da juventude e um conto de amadurecimento. A caminhada, no entanto, não é fácil. Num confronto com as colegas, Adèle sofre com o preconceito e precisa se defender dos rótulos. Em casa a verdade é mascarada. Aliás, Emma e Adèle são de realidades sociais distintas, de famílias com modos de vida distintos.

Também é um filme sobre como nossas relações são difíceis e sobre como apenas química no sexo e características em comum não é o suficiente para um relacionamento se sustentar. Aqui, sem as ilusões do romantismo, o amor se constrói e depois se degenera aos poucos. Para isso os lindos trabalhos de Exarchopoulos e de Seydoux são imprescindíveis. As duas se entregam de corpo e alma. É gratificante vê-las, muitas vezes contracenando em cenas intensas.

A escandalosa cena de sexo entre as duas personagens é uma das mais belas (embora haja lésbicas que criticaram a cena e classificaram-na como pouco realista). Não é desnecessária ou apelativa, é ela quem nos permite compreender melhor a relação das duas, de sentimentos afetivos mas também bastante sexualizados. É também consequência da trama dos minutos anteriores: a crônica da vida de Adèle, que acompanhamos nos mínimos detalhes, converge para ela. Aqueles dois corpos femininos nus são uma personificação da sensualidade. Tudo bastante explícito, cru.

O azul do título não está somente dos cabelos azuis de Emma (que eventualmente mudam de cor, o sinal do rompimento com o passado e das mudanças pelas quais passa). Figurinos e cenários sempre apresentam alguns detalhes na cor. Até a - deslumbrante - fotografia é levemente azulada. Kechiche também tem uma certa obsessão por closes em partes do corpo, sobretudo a boca. O resultado disso é ainda mais sensualidade. O diretor só deslizou na duração excessiva de sua obra, que conta com muitas cenas bobas e falas desnecessárias que poderiam ter sido cortadas.

domingo, 17 de novembro de 2013

Último Tango em Paris (Ultimo tango a Parigi) - 1972; um conto de erotismo e paixão

Último Tango em Paris (Ultimo tango a Parigi), lançado em 1972.
Um filme de Bernardo Bertolucci.
O filme que levou o nome de Bernardo Bertolucci os ouvidos do mundo foi um dos filmes mais polêmicos do cinema. Marlon Brando depois disse ter se arrependido do filme e ficou cinco anos sem falar com o diretor; Maria Schneider, até então desconhecida, com apenas 19 anos, disse ter se sentido violada pelo filme, que segundo ela arruinou sua vida. O filme foi proibido em vários países, inclusive no Brasil, que estava no período do governo militar, e o diretor italiano foi preso por quatro meses por obscenidade em seu país natal. A Itália só pôde assistir o filme na íntegra quinze anos depois. Escândalos à parte o filme recebeu duas indicações ao Oscar e hoje é considerado um importante clássico do cinema europeu.

Paul (Brando) é um americano entristecido com a morte de sua esposa. Ele conhece a jovem Jeannie (Schneider), mulher liberal noiva de um diretor de televisão. Os dois passam a se encontrarem em segredo em um apartamento em Paris, sem jamais revelarem suas identidades. 

No tempo em que estamos este filme não tem nada de mais, se fosse lançado hoje talvez até passasse por despercebido. Não é tão ofensivo quanto dizem. Mas em 72 estamos separados apenas quatro anos de eventos como a Primavera de Praga e o Maio de 68. O filme de Bertolucci foi lançado no período da revolução sexual, escandalizando o público conservador com cenas de sexo anal e um jogo de sedução baseado na dominação sexual. Diferente de outros tantos dramas eróticos, neste o ato não acontece de verdade. Não há sexo explicito e tudo são encenações, o que não impediu os atores de declararem terem se sentido violados por Bertolucci, que desde então foi considerado uma espécie de monstro do cinema. Tempos depois ele filmou o premiado O último imperador, que lhe rendeu o Oscar que não havia conseguido com a indicação por Tango, mas ainda hoje ele gera desconfianças sobre si e alguns atores não aceitam trabalhar com ele.

Tango oferece uma profunda reflexão sobre o amor e o sexo. Um verdadeiro estudo sobre o estado de espírito dos dois amantes, que veem seus encontros como uma fuga de suas vidas frustradas, ainda que também encontrem muito sofrimento dentro do apartamento, fazendo um sexo que parece triste, angustiado e desesperado. O tango, uma das danças mais sensuais e difíceis, é comandada pelo homem, exigindo uma grande química entre os dançarinos. Aqui os dois atores também possuem uma empatia, e Brando domina, tanto como ator como personagem. É também um filme intimista de Bertolucci.

Lento, monótono e cansativo as vezes, mas um filme cheio de beleza e sensualidade como poucos outros. Nos anos seguintes começa a era dos grandes blockbusters e filmes comerciais voltados para o público adolescente. A moda dos dramas eróticos não pegou, mesmo que em 76 o expressivo O império dos sentidos tenha votado a chamar a atenção do público e se tornado um expoente do cinema oriental.

#ficaadica

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Shortbus (idem) - 2006; uma inesperada celebração do envolvimento humano

Shortbus (Shortbus), lançado em 2006.
Um filme de John Cameron Mitchell.
Em 1989 Steven Soderbergh lançou Sexo, mentiras e videotape, um filme maduro sobre a sexualidade humana; poucos anos depois da descoberta da AIDS. Depois da crise da doença, o sexo se tornou um tabu ainda mais forte do que já era no cinema não pornográfico. Mas recentemente o tema tem aparecido com mais naturalidade e frequência. Em Shortbus John Cameron Mitchell, que também assina o roteiro, usa o sexo para nos contar uma história cheia de bom humor e reflexivo drama. E além do tema da sexualidade, tem outras semelhanças com o filme de Soderbergh: frustração sexual, filmadoras e diálogos francos.

Na Nova York pós 11 de setembro, James e Jamie estão pensando em abrir a relação deles e para conhecerem outras pessoas. A partir dessa ideia decidem procurar uma espécie de sexóloga para conversarem, Sofia Lin. Nesse breve contato ela confidencia aos clientes que nunca teve um orgasmo, mesmo ela e o marido tendo uma vida sexual agitada. Então eles a convencem a visitar o clube Shortbus, uma espécie de cabaré comandado pelo mais famoso travesti nova-iorquino, Justin Bond (interpretado por ele mesmo), onde, além dos espetáculos, ocorrem orgias, entre outras atividades sexuais liberais. Lá ela conhece uma dominatrix que vai tentar ajudá-la.

Shortbus já se inicia com uma memorável sequência de cenas: ao som alegre do jazz de Anita O'Day passeamos por uma maquete animada de Nova York, espiando algumas janelas. Um brilhante prólogo. Depois inicia-se divertidas tramas paralelas mas altamente dependentes uma das outras e coexistentes (não como Crash), envolvendo diversas pessoas e sua vida sexual.

Assim como fez Nagisa Oshima nos anos 70, em seu O império dos sentidos (inclusive John Cameron Mitchell faz uma pequena mas inteligente homenagem ao filme de Oshima, muito fácil de ser identificada), Mitchell usa o sexo real e explícito apenas como mais um elemento que compõe a trama, tratado com naturalidade, sem buscar a excitação sexual do público, como faz a pornografia. Apesar de altas doses de humor bastante inteligente, capaz de arrancar boas gargalhadas, Shortbus é, na verdade, um drama intenso e humano sobre intimidade. Ele nos mostra como somos impenetráveis em todos os aspectos da vida, fechados em nossos próprios dramas. Os corpos se despem e também se despem as almas, seja em vídeos, em conversas dentro do armário ou em spas. Pena que o roteiro dá alguns deslizes e algumas das tramas são mal desenvolvidas assim como algumas ações parecem pouco críveis.
Shortbus é um dos filmes mais honestos sobre o 11 de setembro, mostrando a desolação e aparente falta de esperança da população jovem da metrópole.

O filme foi gravado com uma série de atores desconhecidos, profissionais ou amadores (pois o diretor diz, com razão, que as estrelas de cinema não fazem sexo para as câmeras), mas a escolha do elenco foi feita com cuidado e mesmo que, claro, uns foram melhores que outros, as interpretações surpreendem positivamente. A fala do prefeito, por exemplo, de pouquíssimos minutos, foi tão carregada de emoção, de uma sabedoria que só a velhice é capaz de dar, de auto-perdão, que só por ela o ator merecia uma indicação a um Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante.

Apesar de num primeiro momento parecer que o filme está defendendo práticas fetichistas, Mitchell apenas defende um envolvimento sem pudores e traumas: ele nos mostra que nem sempre o sexo é o suficiente, mas nos convida a nos libertar e sermos felizes.

terça-feira, 30 de abril de 2013

O império dos sentidos (Ai no Korīda) - 1976; o maior drama erótico da história

Fiquei confuso se deveria ou não resenhar este filme, afinal é um filme adulto (erótico, não pornográfico), e o blog não é.
Então pensei: "Por que não? É um clássico do cinema, respeitadíssimo, reconhecido pela crítica e pelo público. E você não deve ter leitores menores de quatorze anos, que é uma idade que já sabe muito bem o que é sexo. Você próprio não tem dezoito anos ainda e já viu este e outros filmes 'piores'".
Então resolvi resenhar sim, seria hipocrisia minha dizer que me preocupo com alguma eventual "perda de inocência".

O Império dos Sentidos (Ai no Korīda), lançado em 1976.
Um filme de Nagisa Oshima.
Alguns filmes, no contexto em que são produzidos, acabam criando polêmicas ao mesmo tempo que são aclamados pelo estilo inovador, a ousadia, a originalidade. Foi o caso de O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima, que durante toda a vida criou filmes polêmicos, que em seu próprio país teve a maioria dos filmes cortados pela censura. E a cutucada na ferida dos moralistas, desta vez, foi colocarem dois atores fazendo sexo de verdade.

Este filme, ao contrário do que algumas pessoas pensam, não é pornográfico. O cinema pornográfico é focado no sexo, o que não é o caso dessa obra de arte.  Ai no Korīda é um drama altamente erótico, que narra uma história real acontecida no Japão, e para isso não há pudores em mostrar sexo explícito e nudez feminina e masculina.

No Japão pré II Guerra, Sada Abe é uma ex-prostituta que passa a trabalhar como empregada na casa de Kichizo Ishida. Sedutor, o patrão logo conquista a moça, que possui um apetite sexual incomum. Mas esse pequeno adultério feito por diversão acaba se tornando numa paixão cada vez mais profunda, a ponto de os dois amantes não se largarem e passarem o dia todo num quarto, fazendo amor, numa busca incansável pelo prazer.

O Império dos Sentidos é muito mais do que uma primeira impressão nos faz pensar. Apesar do enredo enxuto, que acaba num trágico fim, o filme faz muito mais do que apenas mostrar um casal fazendo sexo.
Influenciado pelo neo realismo, que visa denunciar as duras verdades da vida, como a pobreza, fome e criminalidade, Nagisa Oshima, vendo a ocidentalização de seu país, que deixa para trás as tradições milenares, cria um filme mostrando toda a sensualidade e erotismo que a cultura japonesa sempre aceitou, e que o mundo ocidental, com sua cultura cristã, condena. Além disso, é claro o jogo de submissão e controle que o filme aborda, inclusive com cenas sado masoquistas de estrangulamento. Enquanto nos anos 60 e 70 a revolução sexual queima soutiens para mostrar a liberdade sexual que o ser humano anseia, nos momentos íntimos não falta gente que gosta de ser submisso. O filme ainda conta com uma cena interessante em que o protagonista anda e direção contrária a militares (lembrem-se que estamos à vésperas da II Guerra), indiferente a eles. Isso demonstra que para ele tudo o que não é Sada já não pertence a seu mundo, ele não está preocupado com a euforia da pré-guerra.

E tudo é cuidadosamente filmado por Oshima, com uma delicadeza, naturalmente e belamente sensual, não vulgar, mesmo em cenas delicadas como a do ovo enfiado na vagina e a ejaculação na boca. Dois seres se entregando no sexo, e lutando psicologicamente (ciumenta, Sada vive ameaçando o parceiro com uma faca).
E tudo isso com uma química incrível dos dois atores Tatsuya Fuji e Eiko Matsuda.

#ficaadica

domingo, 3 de março de 2013

A insustentável leveza do ser (The Unbearable Lightness of Being) - 1988; amor, erotismo e revolução

A insustentável leveza do ser (The Unbearable Lightness of Being), lançado em 1988.
Um filme de Philip Kaufman.
Não é preciso muito conhecimento histórico para saber que o ano de 1968 foi bastante conturbado em todo o mundo: ditadura militar no Brasil, Guerra do Vietnã, Revolução Sexual, Maio de 68, Morte de Luther King, Massacre de Tlatelolco, Primavera de Praga.

É nesse cenário político que o filme se ambienta, na Tchecolosváquia durante a Primavera de Praga e algum período depois. 
Tomas (Daniel Day-Lewis) é um neurologista mulherengo, amante de uma sedutora artista plástica chamada Sabina (Lena Olin). Numa visita de trabalho ao interior ele conhece uma bela fotógrafa chamada Tereza (Juliette Binoche), a qual o segue até Praga e passa a viver com ele. Logo o triângulo amoroso começa a criar ciúmes nas mulheres, até que as tropas da URSS e do Pacto de Varsóvia invadem o país para conter a revolução democrática que se iniciara com a Primavera de Praga e Tereza fotografa a violência da invasão, o que acaba lhe trazendo problemas com a polícia e servindo como prova para incriminar pessoas. Uma onda de emigração assola o país e os três acabam se mudando para Genebra na Suíça, onde Sabina se envolve com um professor universitário casado. Mas a vida dos quatro ainda revelará várias surpresas.

O título do filme é bonito, poético, mas só após o ver (ou ler o livro homônimo do qual foi adaptado, de Milan Kundera), é que entendemos seu significado. Essa leveza está em Tomas e Sabina.
Tomas é jovem e mostra-se bastante alheio ao cenário político de seu país, ele não é um militante político, apenas curte sua liberdade (ou leveza) e busca o prazer sexual desapegado, não lhe atrai a ideia do "peso" de um relacionamento. Então aparece Tereza e coloca a filosofia de vida dele em cheque, ele a ama, não há dúvidas, mas ela é um fardo que o incomoda. Já Sabina partilha da ideia de desapego de Tomas, tem quase uma compulsão em não se envolver além do sexo. Leveza esta que eventualmente pesará em sua situação existencial.

O sexo é um tema-chave aqui. É um filme sensual, praticamente erótico. Há várias cenas de sexo e nudez, mas estas são leves, belas, sutis, naturais. Não incomodam ou constrangem. Uma das mais belas cenas, sem dúvida, é o ensaio fotográfico mútuo de Sabina e Tereza, parece até um baile. E o elenco tem culpa nisso. Sublimes atores. Day-Lewis, magro e jovem, convence em seu papel de intelectual boêmio. Binoche está divina, sensual porém ingênua, doce, profundamente apaixonada e sofredora. E Lena Olin ainda mais sensual, misteriosa e confiante.

É um filme belíssimo, uma verdadeira obra de arte. A fotografia é belíssima. Também há trechos de filmagens reais sobre a invasão russa. Kaufman acerta muito no tom romântico e existencialista na adaptação. O romance - já o li - é um tanto filosófico. Essas questões aparecem aqui com sutileza mas com força e incrível beleza.