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domingo, 21 de agosto de 2016

A atriz do milênio (Sennen joyû) - 2001; revivendo o passado

A atriz do milênio (Sennen joyû), lançado 2001.
Um filme de Satoshi Kon.
Este belíssimo anime teve pouca visibilidade no ocidente (sejamos sinceros, como a maioria dos animes), ainda mais que foi ofuscado pelo excelente A viagem de Chihiro. No entanto é um filme que merece uma visita. Que ainda por cima é metalinguístico.

Um repórter resolve fazer uma entrevista a uma grande atriz, aposentada há trinta anos, de quem é muito fã. De frente para a câmera a anciã decide contar a real história por trás de sua carreira, que muito mais que um amor pela arte, é uma busca por um grande amor. Mas se não bastasse ouvir a história, o repórter e seu câmera são transportados para dentro dela, onde servem de espectadores mas também, eventualmente, desempenham papel ativo.

O mais lindo desse filme é o modo como é narrado. Misturando realidade com ficção e enganos da memória (afinal a grande atriz velhinha conta sua história num estilo Rose Dawson de Titanic), toda a vida da atriz e também boa parte da história japonesa são contadas. As memórias dela nos levam a cenários de sua vida real, cenários de filmes, e os rostos se confundem em sua memória, e personagens da vida real acabam servindo de "modelo" para a (re)formação dessas memórias deturpadas pelo tempo. No entanto, embora possa parecer o contrário, isso é feito de um modo que não atrapalha o entendimento da trama nem a fluidez dela. Embora, por vezes, de fato - creio que de propósito - não se sabe o que é real e o que é devaneio.

Isto também acaba sendo uma homenagem ao cinema e esse seu poder de fazer reais os sonhos e dar vida à imaginação.

Também é essa presença do cinema que nos acaba revelando tanto da história japonesa. Embora parte do que "aprendemos" no filme se deve a eventos reais (reais na trama), como a infância da atriz no pré II Guerra e o evento-chave que fez que seguisse a carreira de atriz e depois uma visita à sua cidade no pós-guerra; outra boa parte nos é ensinada pelos filmes que existem dentro do filme (filmes de época; um que tem samurais, por exemplo).

E claro, tem a linda história de amor e perseverança do enredo. E os aspectos técnicos, como o traço lindo (gosto de filmes em animação tradicional).

Confiram!

sábado, 16 de julho de 2016

South Park: Maior, Melhor e Sem Cortes (South Park: Bigger, Longer & Uncut) - 1999; animação adulta

South Park: Maior, Melhor e Sem Cortes (South Park: Bigger, Longer & Uncut), lançado em 1999.
Um filme de Trey Parker.

De longe a animação adulta mainstream mais polêmica de todas, South Park conquistou rapidamente o público e o espaço na TV norte-americana e depois outros países. O sucesso imediato permitiu que um longa fosse lançado pouco tempo depois da estreia da série.



Depois de assistirem um filme canadense cheio de palavrões, os garotos Kyle, Stan, Kenny e Cartman começam a xingar descontroladamente, o que cria um levante público dos adultos (hipócritas) contra o Canadá. Enquanto isso, Kenny morre e descobre que Satã é namorado de Saddam Hussein no inferno, onde se prepara para uma invasão ao mundo dos vivos.



Sou fã da série, confesso. Mesmo assim tente levar estas poucas linhas a sério e não deixe de conhecer esta animação para adultos que divide opiniões. O traço simples, inspirado em montagem de recortes (isso fica mais evidente no personagem de Saddam - uma foto real do ditador é usada em cima de um corpo tosco e geométrico - e também nos canadenses, todos mais feios, toscos e mal produzidos que os personagens americanos) dá uma atmosfera um pouco trash que se une a piadas escatológicas e outros tipos de humor sujo. Mesmo com essas características pouco promissoras, o filme é otimo e inteligente. Sátiras e alfinetadas na sociedade jorram da tela.



A animação consegue ser entretenimento pipoca e ao mesmo tempo denunciar/escancarar toda a hipocrisia da sociedade estadunidense. Como já denunciado em diversos filmes, a exemplo do documentário Este filme ainda não foi classificado, muito se censura o sexo (especialmente se não heterossexual) e palavrões e pouco censurada é a violência. Alfineta também a belicosidade daquele país: no filme em vez de diálogo parte-se logo para uma guerra. Religião, racismo entre outros temas são discutidos (e principalmente satirizados) neste longa.

Super recomendo uma visita.

sábado, 21 de novembro de 2015

Jack e a Mecânica do Coração (Jack et la mécanique du coeur) - 2013; amor míope

Jack e a Mecânica do Coração (Jack et la mécanique du coeur), lançado em 2013.
Um filme de Stéphane Berla e Mathias Malzieu.
Animação franco-belga pouco conhecida, Jack e a mecânica do coração conta a história de vida de um rapaz impedido de amar devido a um frágil mecanismo que possui no lugar do coração. Ambientado na França do final do século XIX, traz como um dos personagens o cineasta Georges Méliès.
Uma mulher dá à luz a um menino no dia mais frio do ano. Devido a isso o coração do bebê se congela. Para mantê-lo vivo uma médica/inventora cria um coração artificial a partir de um relógio. A mãe biológica parte e deixa o filho aos cuidados da médica. Ele cresce, mas ao longo da vida não pode tocar no mecanismo, ter emoções extremas de raiva e jamais se apaixonar. Mas uma cantora míope vai abalar sua vida.


O filme é baseado no livro "A mecânica do coração" de Mathias Malzieu, publicado em 2007. Malzieu é o vocalista de uma banda francesa de rock. Ele escreveu o livro e depois ajudou na criação do filme, incluindo ser o dublador do protagonista. A trilha sonora ficou toda a cargo da banda. A animação é um musical. Ponto negativo. As canções são um porre e sempre interrompem a história.

História que não é lá essas coisas. Tem sua sensibilidade, sua poesia, sua delicadeza em abordar a paixão e os inocentes amores jovens. No entanto é cheio de clichês e excessos. A figura de Méliès é totalmente desnecessária, tem apenas a pretensão de despertar simpatias nos cinéfilos. Jack, o estripador, aparece numa pontinha, quase a matar seu xará. Desnecessário e apelativo. O antagonista, Joe, é estereotipado e mal pensado, quase não tem motivo algum para não gostar de Jack. Consequentemente quase não temos motivos para não gostar de Joe.
A parte visual é à lá Tim Burton. O surrealismo, a bizarrice, os traços. É o maior ponto positivo da obra, algumas cenas são lindíssimas e a iluminação (quando não propositalmente obscura) é muito agradável.
Não é um filme de todo ruim, inclusive talvez valha a pena aos fãs desse estilo de animação. Mas que o cinema francês tem exemplares muito melhores, tem. Fico aqui no meu canto a lembrar de As bicicletas de Belleville.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Curta-metragem: Comida (Jídlo) - 1993; luta de classes

Comida (Jídlo), lançado em 1993.
Um filme de Jan Svankmajer.
Mais um curta do tcheco Jan Svankmajer. Dessa vez sobre a alimentação humana. O curta é a junção três partes, Café, Almoço e Jantar, cada um abordando uma das três principais refeições diárias com indivíduos de diferentes classes sociais. Além do uso do stop motion combinado à ação natural (Svankmajer é conhecido por essas animações) que flertam com o surrealismo e até o expressionismo. 

Mas claro que há metáforas por trás de tudo isso, principalmente sobre distribuição de riquezas e estilos de vida das pessoas. 

Enquanto os pobres se revezam para comer, arrancando a comida uns dos outros, consumindo uns aos outros, dividindo o alimento; os ricos, com tanta opção e fartura à disposição, ficam entediados sem saberem o que querem de fato comer. Permanecem infelizes e literalmente se consomem. No meio termo a classe média que se sente rica, mas ninguém liga para ela, ninguém faz suas vontades e nem está assim tão bem, tendo que se virar para encher o estômago.

Confira a genialidade do cineasta:

Qualquer problema com o vídeo, por favor nos avise nos comentários.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O Rei Leão (The Lion King) - 1994; clássico Disney

O Rei Leão (The Lion King), lançado em 1994.
Um filme de Roger Allers e Rob Minkoff.
Um dos mais lucrativos filmes de animação da história da Disney - o que é irônico, já que era um projeto considerado pouco promissor pelo estúdio, O Rei Leão tem encantado públicos de todas as idades durante seus mais de vinte anos de existência. Ambientado nas savanas africanas, esta fábula inspirada em Hamlet, de Shakespeare, trata de disputas pela monarquia, sentimento de culpa e liberdade.


Mufasa é um leão que comanda um vasto território no continente africano, como rei dos animais do lugar. Ele é invejado pelo irmão Scar, que por ser mais novo perdeu a sucessão para o irmão. No entanto esse sentimento de raiva e inveja se agrava com o nascimento do primeiro filho de Mufasa, Simba, que se torna o primeiro da linha de sucessão do trono, lugar antes ocupado por Scar. Ajudado pela hienas, inimigas do reino, Scar planeja matar o irmão e o sobrinho.

Primeiro filme da Disney com roteiro original - outras obras eram adaptações, sobretudo de contos de fadas -, The Lion King é capaz de emocionar também aos adultos. Com algumas cenas que são pura poesia e sempre com muita sensibilidade, o filme aborda temas importantes como paternidade, amadurecimento, morte, remorso e responsabilidade. Entre cenas comoventes, trágicas e cômicas, os personagens são moldados e conquistam o amor ou a antipatia do público. Não podemos deixar de mencionar também que são personagens secundários, Timão e Pumba, os que mais famosos ficaram. Quem nunca assistiu ao filme pode não ter ideia de quem ou o quê é Simba ou Mufasa, mas provavelmente já tiveram algum contato com esta dupla. A dublagem, ao menos a original, é excelente e ótimas canções aparecem, incluindo a deliciosa Can You Feel The Love Tonight? de Elton John, co-compositor da premiada trilha sonora.


Feito à mão, no estilo tradicional, mas com grande e inovador uso de computação gráfica como apoio, O Rei Leão é um deleite para os olhos. Bem desenhado, bem animado e com uma paleta incrível de cores, aqui animais e paisagens ganham vida com grande riqueza de detalhes. Com pouquíssimo antropomorfismo, os personagens tem movimentos, hábitos e aparência bastante realistas. A antológica abertura, onde a câmera passeia por cenários africanos filmando sua fauna, deixa isso bem claro. Quase um documentário da National transformado em animação. Sequência que culmina com uma das mais icônicas cenas da história do cinema de animação, quando o macaco pajé apresenta o Simba recém-nascido aos súditos do reino. A sonoplastia também é avançada. Efeitos sonoros interessantíssimos ajudam a dar vida às paisagens, animais e clima.


Um dos principais representantes da Disney dos anos 90, um período de ouro do estúdio, O Rei Leão é imponente, emocionante e lindo.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Toy Story - Um mundo de aventuras (Toy Story) - 1995; o primogênito da Pixar

Toy Story - Um mundo de aventuras (Toy Story), lançado em 1995.
Um filme de John Lasseter.
Primeiro longa da Pixar e supostamente o primeiro longa de animação completamente realizado em computador, Toy Story marcou toda uma geração com seus brinquedos vivos. Até hoje Buzz Lightyear é, talvez, o mesmo que o Mickey é para a Disney: um personagem-símbolo da empresa. Apesar de discordar que seja o melhor filme da produtora e principalmente que seja a melhor animação do mundo - títulos que várias pessoas atribuem a ele -, Toy Story é divertidíssimo e mostrou desde já o poder, a criatividade e o sucesso que a Pixar consolidaria desde então.

Andy, um garotinho agitado, tem um quarto cheio de brinquedos. Quando não há nenhum humano por perto, esses brinquedos agem com vida, capazes de se moverem, pensarem, falarem, sentirem e agirem. O aniversário de Andy se aproxima e os brinquedos entram em estado de terror, temendo serem substituídos por novos brinquedos, sobretudo o vaidoso cowboy Woody, favorito do garoto. E de fato chega um novo brinquedo que se torna o favorito de Andy: Buzz Lightyear, que pensa que é mesmo um herói, em vez de um brinquedo. Eventualmente Woody e Buzz se perdem de Andy e precisam arrumar meios de voltarem para casa.

Toy Story foi um marco no cinema. Foi a transição da animação tradicional para a computação gráfica, que hoje, ao menos em relação a bilheteria, é a principal tecnologia. Além disso inaugurou o estilo Pixar de criar animação, que tem sido imitado em maior ou menor grau pelos outros grandes estúdios: histórias originais que agradam também aos adultos devido a ótimas piadas e temáticas universais, atemporais e profundas (em Procurando Nemo, paternidade, em Ratatouille perseguição de sonhos e superação de preconceitos, em Up modernidade, envelhecimento e amizade entre diferentes faixas etárias, em WALL·E destruição ambiental, sedentarismo e consumismo). Em Toy Story temos um conto de amizade e amadurecimento. E há toda uma aura nostálgica em relação à infância que ajuda a captar a atenção e o afeto também do público adulto. Piadas boas, personagens cativantes (mesmo os cheios de ambiguidade que nem Woody) ou necessariamente odiados (como o vilão Sid) e cheios de vida - é sempre incrível ver a realidade das expressões faciais dos brinquedos. O ritmo rápido e cheio de ação ajudam na fluidez da trama e em prender a atenção do público.


O trabalho visual também é lindo. Apesar de ser o precursor da computação gráfica, os seres e cenários já eram muito bem feitos. Apesar de não tão realista como hoje, onde a renderização chegou a um nível que até pêlos de animais são recriados de forma detalhada, já éramos capazes, 20 anos atrás, de ver a textura das coisas. Objetos de tecido têm suas tramas reproduzidas de forma bem feita em Toy Story. Sem falar na explosão de cores, jogos de iluminação (dia e noite, cores de luzes, como tons amarelados ao pôr do sol), de sombras e movimentos de câmera diversos tais como os usados no cinema de carne e osso.

Falando em câmera tudo é visto do ponto de vista dos brinquedos. A "câmera" é colocada na altura dos olhos dos brinquedos e assim fica a maior parte do tempo, mesmo quando há seres humanos em cena, que acabam tendo apenas os joelhos mostrados na maioria das vezes. Nesse mundo diminuto tudo adquire proporções gigantescas.
Seja como for, Toy Story merece ser visto.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A Bela e a Fera (Beauty and the Beast) - 1991; o renascimento da Disney

A Bela e a Fera (Beauty and the Beast), lançado em 1991.
Um filme de Gary Trousdale e Kirk Wise.
Depois de Mogli - O Menino Lobo (post em breve) de 1967 e Robin Hood de 1973, ambos do período da morte de Walt Disney, os estúdios Disney passaram por um período de quase duas décadas sem produzir algo que fosse um grande sucesso de crítica e público. O sucesso só retornou em 89 com a Pequena Sereia. Mas foi A Bela e a Fera que iniciou os dourados anos 90 da Disney, que foi de mega sucessos como Alladin, O Rei Leão,  Pocahontas, Tarzan, entre outros.

Em forma de musical o filme reconta o conto de fadas da princesa que se apaixona por um príncipe transformado em uma besta, sendo que aqui Bela é cortejada por um caçador machista e narcisista e os moradores do castelo da Fera também foram encantados, sendo transformados em objetos animados.

Este que é um dos maiores sucessos da Disney se tornou logo um recordista de bilheteria, foi indicado ao Oscar de melhor filme (na categoria principal, feito inédito) enquanto a trilha sonora e a canção tema homônima, interpretada por Peabo Bryson e Celine Dion (foi esta música a responsável pelo início da internacionalização da carreira da cantora) levaram o Oscar e o Globo de Ouro, além de alguns Grammy. Hoje é considerado um dos melhores musicais da história do cinema.
Apesar de tanto sucesso, confesso que fiquei frustrado com a trilha sonora. Tirando "Beauty and the Beast" todas as outras músicas são muito chatinhas. Felizmente não são muitas as canções entoadas ao longo do filme. Nem todas as falas são músicas.

O que realmente é bom em A Bela e a Fera é a belíssima fotografia. São traços interessantíssimos os dos desenhos de cores vibrantes. Cenários e personagens são de uma riqueza de detalhes impressionante. E várias vezes ótimos travelings melhoram isso ainda mais, como na linda cena em que Bela e a Fera dançam juntos pela primeira vez, num amplo e lindo salão. A câmera gira em torno do casal, depois olha para cima, dá um close nos afrescos do teto e, então, lentamente vem descendo de volta num movimento circular, se aproximando do casal até olha-lo em contra-plongée. É de tirar o fôlego.

O modo como a trama é conduzida, com leveza e naturalidade, sem muita pressa nem lentidão, também é um mérito da produção. Sem falar nos traços de originalidade: aqui a heroína é quem salva o príncipe; além de querer independência e não se contentar com o papel doméstico que querem lhe impor. Um tanto feminista, não?
A moral da história, apesar de velha, é ainda hoje válida e atual: as aparências enganam e deve-se valorizar as pessoas pelo caráter. É o embate entre Gastão e a Fera.

Quem é de minha geração ou mais novo cresceu vendo filmes da Pixar, animações digitais um tanto inteligentes e maduros. Visitar um conto de fadas em animação tradicional pode parecer um retrocesso. Mas garanto que Beauty and the Beast tem muito a oferecer.

domingo, 17 de agosto de 2014

A Dama e o Vagabundo (Lady and the Tramp) - 1955; a Disney em seu ápice

A Dama e o Vagabundo (Lady and the Tramp), lançado em 1955.
Um filme de Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske.
Um dos maiores clássicos da Disney está quase a completar 60 anos de idade. Dono do que provavelmente é a cena de animação mais icônica e reconhecida do cinema, a do macarrão, o filme exala doçura e algumas doses de ousadia.

Lady é uma cadela de raça criada por uma família de classe média alta. Ela é muito querida por seus donos e o centro da atenção da casa. Quando, porém, sua dona engravida, ela passa a ficar em segundo plano. Então aparece um cão vira-lata vagabundo por quem acaba por se apaixonar depois de se perder na cidade e ser ajudada por ele.

Lady and the Tramp é um filme belo. Riquíssimo visualmente, ele usa uma série de cenários diferentes para contar a história. E inteligentemente estes cenários tem humor próprio. As cenas alegres ocorrem em ambientes iluminados e coloridos, as mais pesadas em cenários mais escuros, sujos e feios, e até mesmo uma atmosfera romântica, com direito a noite enluarada, ajuda a criar o clima de paixão em determinadas cenas. Isso é algo que está e sempre esteve presente no cinema. Mas foi algo um tanto importante para uma animação na época, embora em trabalhos anteriores o estúdio Disney já tivesse feito isso, ainda que de forma não tão incrível como aqui. A parte visual incrível se estende também para as figuras dos personagens e em efeitos típicos do cinema convencional mas até então ainda pouco usados em animação: zoom, panorâmica de cenários, efeitos na transição de cenas, contra-plongées, travellings e câmeras distantes.
Junte isso aos detalhes que dão mais vida às animações (aqui os cães, como na vida real, se coçam e se espreguiçam e os ratos ficam sobre as duas patas traseiras).

O filme acontece sobre o ponto de vista dos cães, o que nos deixa ainda mais próximos aos protagonistas. Não é à toa que Lady chama seus donos de "Jim, querido" e "Meu bem": os dois se chamam assim, então a cadela aprendeu a chamá-los assim, não conhece seus verdadeiros nomes. Outra coisa que deixa claro isso de um mundo visto pelos olhos de um cão é que muito raramente vemos o rosto de um personagem humano. Na maioria das vezes só vemos suas pernas (efeito que é muito nítido também nos desenhos Tom and Jerry), que é como os cães costumam nos ver. Os cenários também sempre vão vistos de um ponto mais baixo, como se a câmera estivesse apenas alguns centímetros acima do chão, no nível dos olhos de um cão.

Se já não bastasse a riqueza visual e uma trama encantadora, há ainda alguns pontos um tanto ousados. Além de abordar o choque entre classes sociais diferentes (oposição entre cão de raça/vira latas, cão de família rica/abandonado, bairro de classe alta/subúrbio, coleiras que são como um atestado de nobreza/falta de coleira que pode condenar um cão à carrocinha), há até mesmo brincadeiras entre ideologias políticas (direita x esquerda): 

"Não precisamos de nenhum vira lata de ideias radicais"

Há também de se notar que o comportamento de Lady quando sabe da gravidez de sua dona é igual às teorias de Freud: o irmão mais velho sente ciúmes do bebê recém nascido, que recebe mais atenção por parte dos pais do que ele. No zoo o vagabundo remete a Darwin ao dizer que os macacos são muito parecidos com os humanos. E depois há até mesmo uma sutil conotação sexual que deixa a entender que a cadela, "moça virgem de família", "se tornou mulher".
Difícil não amar este filme.