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terça-feira, 15 de setembro de 2015

A Fraternidade é Vermelha (Trois couleurs: Rouge) - 1994; eu que era triste, descrente deste mundo

A Fraternidade é Vermelha (Trois couleurs: Rouge), lançado em 1994.
Um filme de Krzysztof Kieślowski.

Último filme da Trilogia das Cores de Kieślowski, lançada na primeira metade da década de 90, Rouge trata do ideal da fraternidade e da cor vermelha da bandeira francesa. Dos três é o mais querido do público e da crítica num geral.

Valentine (Irène Jacob) é uma modelo, recém contratada para um comercial de goma de mascar, que atropela um cão. O dono do animal é um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant) que passa seus dias fazendo escutas telefônicas dos vizinhos. Apesar da repulsa inicial com as atitudes do amargurado juiz - que lhe deu o cão - os dois acabam se aproximando após ele a fazer refletir sobre o que é fazer o bem aos outros.

Mais rápido e dinâmico que o contemplativo Bleu e mais lento que Blanc, é Rouge, nessa posição de equilíbrio, que interliga os outros filmes da trilogia. O que há de unir os personagens dos três filmes é o acaso, uma tragédia que vivenciaram em comum. Se o acaso (ou destino, ou ironia da vida, ou providência divina, como quiserem chamar) está presente em todos os três filmes e leva a acontecimentos na vida de cada personagem, é aqui no final que aparece de modo mais intenso ou, ao menos, mais explícito.

Um livro que cai pode mudar uma vida. Essa questão de pequenas coisas modificarem coisas grandes (que remete diretamente à parte da Teoria do Caos estudada por Lorenz) tem sido abordada no cinema em vários filmes, como em Corra, Lola, corra, ou mais diretamente em Efeito Borboleta (nome da teoria de Lorenz). Mas não com a delicadeza que ocorre aqui. Personagens que vivem próximos mas que nunca se viram (tão comum em grandes cidades, ainda mais com o estilo de vida frenético da atualidade), acidentes que unem vidas, histórias de vida parecidas mas totalmente independentes uma da outra é que constroem essa trama de encontros e desencontros.

Os protagonistas são o oposto um do outro. A linda Jacob é doce, benévola. O juiz (Trintignant, ótimo) amargurado e desagradável. Ainda assim se tornam amigos. A amizade é uma redenção, uma alegria, mesmo com os defeitos de cada um. A humanidade é imperfeita. Os idealismos também. A solidariedade é mais um desejo de ajudar os outros por auto realização e bem estar próprio que por generosidade pura, acusa o filme por meio de uma fala do juiz. Reflexões sobre igualdade, moral, ética, lei e altruísmo são trazidas à tona.

A fraternidade é vermelha como o sangue que jorra nas veias de todos os seres humanos, iguais na sua insignificância. O vermelho é um protagonista, assim como a cor também é no restante da trilogia. Aqui se usa menos filtros que nos outros dois, mas nunca cenários, figurinos e objetos estiveram tão deliberadamente coloridos. Vermelho que se revela nos travelings, closes, planos e quadros cheios de estilo e apelo estético.
Com Rouge Kieślowski fecha a trilogia com chave de ouro. Morreu de ataque cardíaco pouco depois, já aposentado, embora tivesse pouco mais de 50 anos. Mais de vinte anos e ainda hoje sua obra é constantemente visitada e revisitada por cinéfilos de todo o mundo.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

A Igualdade é Branca (Trois Couleurs: Blanc) - 1994; ainda te quero

A Igualdade é Branca (Trois Couleurs: Blanc), lançado em 1994.
Um filme de Krzysztof Kieślowski.


Segundo filme da Trilogia das Cores, Blanc é um drama com ares de comédia que trata da cor branca da bandeira francesa e do ideal de igualdade da Revolução Francesa. Dos três este era o predileto do cineasta.

Em Paris o cabeleireiro imigrante polonês Karol (Zbigniew Zamachowski) é casado com a francesa Dominique (Julie Delpy). Mas o casamento é anulado numa sessão judicial onde Karol é humilhado. Sem esposa ele perde a cidadania francesa, amigos e a parte que tinha como sócio da esposa num salão. Num estado de mendicância ele ainda consegue voltar para a Polônia, onde ele prospera financeiramente e busca ficar igual à ex.

Diferente do primeiro filme, Bleu, que é mais lento e melancólico, Blanc é mais dinâmico e leve, inclusive flerta de perto com a comédia na hora de narrar os desencontros e tristeza de seus personagens.

Karol ama a esposa, mas tem problemas de ereção que impedem que satisfaça Dominique sexualmente. Ela também o ama, mas irritada diante dessa carência de sexo decide anular o casamento. Esse Karol sozinho num país que não é seu, sem dinheiro e sem documentos, conhece outro polaco - também infeliz embora por motivos distintos - e volta à Polônia recém-capitalista, onde muda de classe social, mas sempre triste e com nítida saudade de Dominique. Volta à Polônia do inverno, coberta de neve e igualmente branca no céu. Branco cor da pureza, cor sem cor, cor séria e calma. Como nos outros filmes, a cor é importante e está sempre presente em cenários, figurinos, na iluminação e nos filtros. Os closes em rostos e objetos estão presentes.A desmitificação das supostas "liberdade, igualdade e fraternidade" da França e do resto da Europa - supostamente unificada, dizer que mais tem de poético que de real - continua neste segundo filme. Igualdade é um termo controverso, pois a igualdade está longe de ser sinônimo de justiça. Chega até a ser difícil definir o que é a igualdade entre os homens. Que seria isso, iguais no ponto de vista do quê? As diferenças não deveriam ser respeitadas? Uma imagem muito conhecida é capaz de fazer refletir:



No filme há de se tentar equalizar as forças, as desgraças, as humilhações, a falta de comunicação pela diferença de idiomas. Obviamente isso só traz mais injustiça e sofrimento a Zamachowski, excelente no papel, e à linda Julie Delpy, que ao mesmo tempo nos causa uma certa antipatia pelas ações que faz com Karol e empatia pelos motivos do divorcio e pena da injustiça em que será enfiada.

O terceiro e último filme é A Fraternidade é Vermelha.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Anna dos 6 aos 18 (Anna ot 6 do 18) - 1994; a queda da URSS

Anna dos 6 aos 18 (Anna ot 6 do 18), lançado em 1994.
Um documentário de Nikita Mikhalkov.
Quando Boyhood estourou mundo afora logo surgiram comparações com este filme/documentário até então muito pouco conhecido. Assim como o filme americano, esse documentário russo também foi filmado durante 12 anos, também acompanhando o crescimento de uma criança. Por um lado Boyhood é ficção (embora o mesmo ator, crescendo, interpreta um mesmo personagem, que é o charme maior da obra) enquanto Anna acompanha o crescimento da filha do cineasta, Anna.

Durante 12 anos Mikhalkov filma a filha, entre seus seis e dezoito anos, uma vez ao ano, quando repete algumas mesmas perguntas. Naturalmente as respostas variam ano após ano. Ao mesmo tempo o cineasta intercala o filme com imagens históricas da URSS, e mostra a decadência do império comunista, que começava a definhar ao mesmo tempo que a filha crescia. Traça também um paralelo entre sua filha e um personagem de um outro filme seu, crianças a viverem em uma Rússia de tempos diferentes.

Apesar do cineasta deslizar às vezes devido a visões muito conservadoras na hora de criticar o regime comunista, como dizer que o que faltava na URSS era Deus, pois na falta de fé (o regime era ateísta) a população via líderes como divindade e até mesmo revelar nas entrelinhas um certo saudosismo em relação à Rússia monárquica de antes da revolução (monarquia absolutista dos czares); Mikhalkov fez um filme belo onde o tempo é o principal personagem e que de fato ajuda a compreender um pouco a Rússia e o regime. 

Filmado de maneira clandestina num período de grande repressão e censura, o diretor comprava filme no mercado negro a alto custo, o que justificava as poucas horas de filmagens por ano. Já nos anos 90 ele finalizou o filme remendando as filmagens e acrescentando outras imagens. O resultado, um série de memorias a percorrerem o tempo e o espaço mostra o desenvolvimento da filha e sobretudo como o ambiente tinha papel nisso. Desde cedo a filha começa a mostrar traços ideológicos alinhados ao governo, a ponto de, ainda criança, chorar pela morte de líderes comunistas. De medo de bruxa ao medo de explodir uma guerra.

A URSS foi um império a viver de aparências. O socialismo ali praticado não condizia com o socialismo idealizado originalmente e por todo o país ainda havia pobreza e sofrimento. Mesmo assim, revela o filme, o povo não perdia sua identidade cultural, fé e sobretudo seu amor pela terra, um amor mais genuíno e menos pérfido que um simples patriotismo.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O Rei Leão (The Lion King) - 1994; clássico Disney

O Rei Leão (The Lion King), lançado em 1994.
Um filme de Roger Allers e Rob Minkoff.
Um dos mais lucrativos filmes de animação da história da Disney - o que é irônico, já que era um projeto considerado pouco promissor pelo estúdio, O Rei Leão tem encantado públicos de todas as idades durante seus mais de vinte anos de existência. Ambientado nas savanas africanas, esta fábula inspirada em Hamlet, de Shakespeare, trata de disputas pela monarquia, sentimento de culpa e liberdade.


Mufasa é um leão que comanda um vasto território no continente africano, como rei dos animais do lugar. Ele é invejado pelo irmão Scar, que por ser mais novo perdeu a sucessão para o irmão. No entanto esse sentimento de raiva e inveja se agrava com o nascimento do primeiro filho de Mufasa, Simba, que se torna o primeiro da linha de sucessão do trono, lugar antes ocupado por Scar. Ajudado pela hienas, inimigas do reino, Scar planeja matar o irmão e o sobrinho.

Primeiro filme da Disney com roteiro original - outras obras eram adaptações, sobretudo de contos de fadas -, The Lion King é capaz de emocionar também aos adultos. Com algumas cenas que são pura poesia e sempre com muita sensibilidade, o filme aborda temas importantes como paternidade, amadurecimento, morte, remorso e responsabilidade. Entre cenas comoventes, trágicas e cômicas, os personagens são moldados e conquistam o amor ou a antipatia do público. Não podemos deixar de mencionar também que são personagens secundários, Timão e Pumba, os que mais famosos ficaram. Quem nunca assistiu ao filme pode não ter ideia de quem ou o quê é Simba ou Mufasa, mas provavelmente já tiveram algum contato com esta dupla. A dublagem, ao menos a original, é excelente e ótimas canções aparecem, incluindo a deliciosa Can You Feel The Love Tonight? de Elton John, co-compositor da premiada trilha sonora.


Feito à mão, no estilo tradicional, mas com grande e inovador uso de computação gráfica como apoio, O Rei Leão é um deleite para os olhos. Bem desenhado, bem animado e com uma paleta incrível de cores, aqui animais e paisagens ganham vida com grande riqueza de detalhes. Com pouquíssimo antropomorfismo, os personagens tem movimentos, hábitos e aparência bastante realistas. A antológica abertura, onde a câmera passeia por cenários africanos filmando sua fauna, deixa isso bem claro. Quase um documentário da National transformado em animação. Sequência que culmina com uma das mais icônicas cenas da história do cinema de animação, quando o macaco pajé apresenta o Simba recém-nascido aos súditos do reino. A sonoplastia também é avançada. Efeitos sonoros interessantíssimos ajudam a dar vida às paisagens, animais e clima.


Um dos principais representantes da Disney dos anos 90, um período de ouro do estúdio, O Rei Leão é imponente, emocionante e lindo.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Assassinos por natureza (Natural born killers) - 1994; a sociedade do espetáculo

Assassinos por natureza (Natural Born Killers), lançado em 1994.
Um filme de Oliver Stone.
A princípio não curti este filme. Isto é, algo nele me desagradava nos primeiros minutos. Mas depois de algum tempo de filme, quando entendi perfeitamente qual era a sua essência e premissa, passei a gostar bastante. Todo o absurdo e sensacionalismo que permeia Natural Born Killers tem um motivo de existir, é uma crítica ferrenha que o mítico Oliver Stone fez à sociedade contemporânea.

Mickey Knox (Woody Harrelson) e Mallory Knox (Juliette Lewis) são um casal de serial killers. Além de saírem pelo país a matarem brutalmente dezenas de pessoas, se aproveitam da fama que desenvolvem por meio da mídia que cobre suas ações. Quase instantaneamente os dois se tornam super estrelas da TV. Enquanto isso um policial quase tão psicótico está no rastro deles.

O filme é polêmico; e rendeu muita dor de cabeça para Stone. Ele pegou o roteiro de Tarantino e modificou, deixando-o ainda mais violento e irônico. O filme é uma forte crítica à sociedade do espetáculo e à exaltação da violência. Foi proibido em alguns países e o diretor foi acusado e processado por supostamente incitar a violência - e há relatos de crimes violentos supostamente inspirados pela obra. A originalidade e a ousadia do longa foi tanta que mesmo ele estando a completar 20 anos ainda é incomum e chocante.

Stone, que foi aluno de Scorsese e se declara inspirado por gente como Buñuel, juntou aqui o surrealismo de um com a violência dos filmes do outro. A saga de Mickey e Mallory tingindo o país de vermelho é mostrado com uma orgia de efeitos e técnicas de filmagem, edição, estilos narrativos e ideias. Nas mãos do cineasta a trama é construída com animações, flash-backs em formato de sitcom, e narrativa linear. O que por sua vez misturam preto e branco, filtros coloridos, saturação de cores, realce de objetos ou partes do cenário, etc. E isso tudo ainda cheio de movimentos bruscos de câmera e cortes rápidos. Parece exagerado. E é, mas com motivos.
Com tudo isso é possível saber o que é pensamento ou visão dos personagens, o que é realidade, o que é a visão do público que acompanha as ações dos dois com idolatria e admiração. Esse último ponto, muito mais que ilustrar a banalização da violência, mostra como a sociedade anda doente.

Apesar de tanto sangue, também é um filme bastante engraçado. A sátira social rende boas risadas. Ações absurdas e personagens estereotipados - vividos por um elenco afiado - comandam esse enredo sobre a podridão do mundo. Pena que houve tanta gente que não entendeu que a grande exaltação da violência que acontece na trama na verdade pretende é alfinetar a mídia sensacionalista americana (mas também serve para a brasileira - beijos pro Datena) e mostrar como isso é coisa de gente estúpida.

A menos que você não suporte violência explícita, é interessante conhecer essa joia dos anos 90.

#ficaadica

sábado, 31 de agosto de 2013

Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption) - 1994; um dos mais aclamados dramas de prisão

Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption), lançado em 1994.
Um filme de Frank Darabont.
Tido como a maior injustiça da história do Oscar, este filme, que em seu lançamento não levou muita gente aos cinemas, tornou-se rapidamente um clássico queridíssimo do público e dos críticos. É sem dúvida um grande filme, mas eu esperava um pouco mais. E realmente acho que Forrest Gump ou mesmo Pulp Fiction mereciam a estatueta mais que ele.

Acusado de matar a esposa e seu amante, o banqueiro Andrew Dufresne (Tim Robbins) é condenado a prisão perpétua em 1946. Chegando na prisão ele vai conhecer o contrabandista "Red" (Freeman) e criar uma sincera amizade. Pararelo a isso ele se torna influente na prisão e passa a prestar serviços contábeis para os agentes e para o cruel diretor da prisão.

A melhor coisa do filme é Morgan Freeman, de longe a melhor atuação, e mais carismático que o protagonista. Mas também a ele se deve um grande furo do filme: o voice-over; que sempre são perigosas. Embora a narração esteja belíssima na voz viva e doce de Freeman, e dê um ar de melancolia à trama, sem falar em uma certa poesia em momentos pensados para serem poéticos, ela sobra e incomoda, principalmente quando serve para contar o que já estamos vendo na tela, como quando ele explica o que Dufresne fez naquela noite chuvosa com a corda que encomendara.
Tim Robbins, apesar de não tão brilhante, nos entrega um trabalho meticuloso, na pele de um homem misterioso, calmo e calado. Ele passa seus dias de confinamento lutando para manter a esperança e aceitar pequenos remorsos. Os dois vivem uma amizade leal, na qual um inspira sobrevivência no outro. 
O trabalho de montagem bem como a própria estrutura do roteiro são bem inteligentes. O tempo passa devagar, as rugas surgem, a idade se aproxima aos poucos. Mas o maior acerto é a sequência de cenas, capazes de manter a atenção do público, sem ser muito previsível. Bom exemplo são os momentos que antecedem o clímax,  tudo leva a crer que vai haver um suicídio, mas o que ocorre é mais interessante e surpreendente. 
O cenário é realista. Filmado no interior mal iluminado de uma prisão abandonada, Darabont nos entrega uma experiência sincera. A fotografia é fria e cinzenta, servindo para acentuar a grande tristeza e solidão do ambiente. Igualmente sombria é a trilha sonora (de Thomas Newman), tirando o momento em que um disco irá tocar e a música voar livre pelos corredores da prisão. É de arrepiar. 

Apesar disso é um filme simples e que segue um estilo tradicional de produção, contando um conto inspirador e belo, mas não mais que isso. Por isso tive uma pequena decepção, esperava algo um pouco mais inovador. Mas repito, é uma excelente película. Um sonho de liberdade merece ser assistido; um filme sobre amizade, esperança, paciência, expiação e liberdade e paz interior.
#ficaadica

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Forrest Gump: o contador de histórias (Forrest Gump) - 1994; uma homenagem à vida

Forrest Gump: o contador de histórias (Forrest Gump), lançado em 1994.
Um filme de Robert Zemeckis.
Forrest Gump é um filme interessante. Carregado de simbolismos, ele faz críticas à sociedade ao mesmo tempo que presta uma homenagem à vida e a razão da existência humana (se é que há alguma) com sua mistura de ridículas cenas cômicas e dramáticas verdades da vida, como a doença e a morte.
Sucesso de crítica e de público, vencedor de vários prêmios, o filme é protagonizado por um homem com retardo mental,  Forrest Gump, interpretado por Tom Hanks, com um corte de cabelo ridículo e antiquado (que ajuda a moldar a personagem) e acompanha sua vida ao longo de décadas, seja por meio de flash-backs, sempre narrador por Forrest, ou tempo cronológico.

O filme inicia com a simbólica imagem de uma pena flutuando e indo parar aos pés de Forrest, sentado num banco esperando por um ônibus. Ele guarda a pena num livro livro e então começa a contar a história de sua vida a uma mulher ao lado no banco. Ele não consegue notar o desinteresse da mulher e continua falando. Sua infância se passou numa pequena cidade, e tendo problemas ortopédicos precisa usar uma espécie de bota metálica que limita seus movimentos. Na escola, por causa de seu altismo, é recusado; então, para conseguir a vaga para o filho, a mãe dorme com o diretor. Em seu primeiro dia de aula ele já sofre com bullyng, mas conhece Jenny, seu amor de toda a vida. Um dia, sendo perseguido por alguns meninos querendo bater-lhe, ele corre o mais rápido que consegue, mas o tranco acaba quebrando a bota e então Forrest se vê correndo com as pernas livres. Desde aquele dia, se precisasse ir a algum lugar, ia correndo. E isso o tornou rápido. Então começa a verdadeira fábula, pois Forrest acaba se tornando um ícone do país, um herói nacional, sendo recebido várias vezes por presidentes do país, conhecendo e inspirando músicos como Elvis e John Lennon, tornando-se empreendedor, participando "ativamente" ou como observador na história do país, mesmo fazendo tudo isso ingenuamente e várias vezes comandado apenas pelo acaso.

Forrest passa pela guerra do Vietnã, onde conhece Bubba, um negro que adora falar de camarão e durante os meses em que lá esteve, sempre pensava na mãe e em Jenny, que na América aderia ao movimento hippie e ao ativismo anti-guerra. Também lá ele salvou a vida de um comandante militar, que acaba fazendo parte de sua vida. Joga futebol e ping-pong, corre por todo o país.

É difícil estipular uma interpretação exata (e também seria errado fazer isso), mas sem dúvida o filme homenageia a vida, provando que os sonhos podem se tornar reais, e que mesmo pessoas "anormais" merecem respeito e chances de viver. Muitos consideram Forrest Gump um filme politizado, por retratar Forrest como um conservador idiota que se dá bem na vida enquanto os "rebeldes" sucumbem, e de fato acaba sendo mesmo, não sabemos se propositalmente. Todo o filme é de um história fantástica, não raras vezes absurda, pouco histórica e ou verossímil, recheada de gargalhadas e melodramas, mas que faz-nos sentir bem e ter outra visão da vida. Destaque para o impecável trabalho de Hanks. Vale a pena conferir.

#ficaadica