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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Cake - Uma razão para viver (Cake) - 2014; a vida segue

Cake - Uma razão para viver (Cake), lançado em 2014.
Um filme de Daniel Barnz.

Sou grande fã de Friends e consequentemente de Jennifer Aniston. E é por causa de Friends e sua eterna Rachel, que Aniston é uma das atrizes mais queridas dos EUA. No entanto esse meu "fanatismo" por ela começa em Friends e ali mesmo termina. Após a sitcom ela continuou famosa (diferente dos colegas da série) devido à uma enxurrada de filmes de comédia ou comédia romântica que nunca me interessaram. Em Cake ela abraçou um papel dramático e houve quem apostasse que seria indicada ao Oscar. Cake é um filme mediano em que Aniston mostra ser capaz de papéis dramáticos, embora não justifique prêmios.




Após sofrer um acidente que mata seu filho e a deixa muito ferida, Claire (Aniston) sofre de dor crônica, o que a obriga a se entupir de analgésicos e sedativos. Infeliz, sua relação com as pessoas é dificultada e ela sobra quase sozinha, sem saber onde e como arrumar forças para continuar.


Menos magra e com pouca maquiagem (exceto a usada para criar cicatrizes), Aniston faz um trabalho cru, onde o que conta são os nuances de cada gesto, cada postura, cada expressão facial. Cercada de coadjuvantes competentes, a base para a qualidade de seu trabalho é moldada. Claire é carregada de dor, tristeza, culpa e amargura. No entanto o filme não vai muito além disso.



Tirando os atores, em especial Aniston, nada mais se destaca no filme. Na fotografia há muita técnica para pouca sensibilidade. E o roteiro tropeça muito. Em diversos momentos a obra flerta com a comédia e o resultado não é bom. As piadas de humor negro e o sarcasmo de Claire são toleráveis, combinam com a personagem amargurada e revoltada com os rumos da vida. Mas uma mexicana xingando em espanhol e uma pequena ladra - que supostamente há de se tornar atriz pornô depois de se frustrar com uma carreira artística - fazendo bons bolos estão ali como extravagâncias.

As alucinações envolvendo uma morta, então, não ajudam em nada.
E o enredo é a velha fórmula da pessoa que precisa superar um trauma.

Só vale a vista pela Aniston.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Boogie Nights - Prazer sem limites (Boogie Nights) - 1997; excitante metalinguagem

Boogie Nights - Prazer sem limites (Boogie Nights), lançado em 1997.
Um filme de Paul Thomas Anderson.
Filmes pornográficos (diferentes de filmes "eróticos", que supostamente são mais artísticos, ou ao menos exploram a sexualidade de outra forma) são criados com o objetivo de excitar/estimular seu público. Boogie Nights não é pornográfico, mas fala sobre pornografia. E é excitante. A cena de abertura já é uma preliminar do que Paul Thomas Anderson nos entregará ao longo de duas horas e meia. São três minutos de traveling sem nenhum corte explorando diversos personagens numa casa noturna que é para deixar qualquer um ofegando.

Estamos nos anos 70 e acompanhamos a vida de uma equipe de atores e técnicos de filmes pornográficos, sobretudo a de Eddie Adams (Mark Wahlberg) que sob o nome artístico de Dirk Diggler se torna o maior astro do mundo pornô da década, e sua eventual queda. Nos bastidores desse mundo de sexo, drogas e festa vamos conhecendo os dramas dessa gente.

É impossível não comparar Boogie Nights com o Magnólia que Thomas Anderson lançou dois anos depois, seu próximo filme. Além do elenco das duas obras serem bem parecidos (Julianne Moore, William H. Macy, John C. Reilly, Philip Seymour Hoffman, Alfred Molina, Philip Baker Hall e Luis Guzmán são alguns dos nomes - todos bem reconhecidos, inclusive - que aparecem nos dois filmes), Boogie Nights é, de certa forma, uma preparação para Magnólia. Aqui ele, que também assina o roteiro, já explora várias tramas. Em Magnolia tudo é velado e a principio não é tão fácil inter-relacionar as tramas umas com as outras, até que o filme explicite isso. Em Boogie Nights isso não ocorre, o tempo todo os vários personagens estão diretamente ligados, mas isso não impede que o diretor se dedique um pouco de cada vez a estudar a humanidade de seus personagens, seus segredos, seus dilemas. Magnólia é de uma tristeza fúnebre, embora tenha suas pontas de humor negro. Boogie Nights é bem mais leve e engraçado - e também não falta o sarcasmo e o humor negro - mas também sobre ele parece haver uma névoa de tristeza pairando sobre essas pessoas em festas e felicidades falsas. É o prenúncio de o ciclo de prosperidade eventualmente acaba.

Muito além das qualidades do enredo e do elenco (que está tinindo, sobretudo Wahlberg, Moore, Reilly e Hoffman) o filme mostra o talento técnico de Thomas Anderson. A cena de abertura é só uma amostra do que este homem é capaz. Não faltam giros (é impressionante o poder de explorar os cenários), travelings, closes (até mesmo no caminhar), plongées e contra-plongées o filme todo. Tudo com muito bom gosto e sem excessos. A parte da montagem também é excelente. Quase tão excitante quanto a abertura são os cortes e movimentos de câmera frenéticos que durante quinze minutos ilustram a ascensão meteórica de Dirk Diggler. Não se pode deixar de enumerar também o grau de sensualidade que o cineasta consegue em muitas cenas, sem torná-las vulgar como a maioria das cenas de filmes pornográficos. Nada comparado a Almodóvar, mas ainda assim cenas quentes e belas.

Boogie Nights não é pornográfico, mas estimulará bastante sua audição e visão. É um divertido retrato de um período, dos badalados anos 70 e 80.

#ficaadica

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Fargo (idem) - 1996; violência e discreto humor negro

Fargo (Fargo), lançado em 1996.
Um filme dos irmãos Coen (Ethan Coen e Joel Coen).
O mais clássico dos filmes dos irmãos Coen, lembrado como uma das grandes joias do cinema dos anos 90. Supostamente contando uma história real (o roteiro assinado pelos irmãos, ao que tudo indica, não tem nada de real) os dois diretores criam uma espécie de thriller misturado com humor negro.

Metido numa encrenca financeira, Jerry (William H. Macy), o gerente de uma loja de automóveis, contrata dois homens para sequestrarem sua esposa, obrigando o rico sogro a pagar uma grande quantia pelo resgate. Mas seus planos começam a dar errado quando os dois sequestradores são obrigados a matar um policial. Para piorar para eles, a detetive Marge (Frances McDormand), que está grávida, começa a investigar o caso profundamente.

A força de Fargo está em como os irmãos conduziram a trama. Ela é simples, um tanto banal, até. A narrativa também. Na verdade o filme é construído em cima de clichês e ações corriqueiras, temperadas com absurdos trágicos que dão um humor por trás disso tudo. É como se tivessem pegado trechos de um punhado de crônicas sobre o dia a dia de uma cidade pacata e os unido em torno de uma trama policial, formando um conto que então foi filmado.
Muitas são as situações corriqueiras que nos permitem nos identificarmos com elas. O sotaque caipira nos parece bobo e um lugar-comum. Então acontecem situações inesperadas ainda que comuns. Vez ou outra algo realmente absurdo ou, pelo menos, improvável ocorre (o simples depoimento de um morador é engraçado de tão estúpido que é). E assim o roteiro é construído. Parece pouco, mas a meia dúzia de linhas bobas que eu escrevo não são capazes de transmitir com clareza o estilo Coen de filmar. O estilo dos irmão é percebido e reconhecido em seus filmes. Como inúmeros outros cineastas você não consegue explicar muito bem como é o estilo, mas sabe muito bem que ele existe e o identifica. Quem conhece um pouquinho de Scorsese, Eastwood, Dardenne ou Coen, só para citar alguns exemplos, é capaz de olhar para trechos de obras ainda desconhecidas desses diretores e, no mínimo, desconfiar que eles podem ser os autores.

O humor dos Coen é bem pessoal. Não é de fazer risadas nem é comum; é mais de provocar uns sorrisos perplexos por causa de suas ironias e absurdos. Quem viu o ótimo Onde os fracos não tem vez sabe muito bem o que eu digo.
Aqui esse humor se materializa sobretudo na imagem do ótimo William H. Macy. Ele passa muito bem a sensação de um homem meio desequilibrado, fracassado e submisso. Steve Buscemi, um dos sequestradores, também é incrivelmente cômico e exagerado. Por outro lado a policial de McDormand é esperta e sensata, de uma personalidade séria e forte que é equilibrada com uma adorável doçura. Só não sei se realmente merecia o Oscar.

Só mesmo os Coen para mostrar o sangue derramado desmacular a frieza da fotografia e o branco da neve com tanta magia.
#ficaadica